quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Duas Últimas

Há em mim um revivalismo kitsch (ou será apenas possidónio?) que não me envergonha. Talvez o que eu sou ficasse manco sem essa fatia substantiva que me constitui. Não sendo musicólogo nem melómano, vivo de gostos, alguns mais singulares do que outros. A muitas músicas, por mais bizarras que sejam num cavalheiro com 55 anos, urbano e vagamente letrado, não me associa nada. Gosto porque gosto, porque algo nas minhas entranhas se compraz com a toada, com a letra, com o intérprete, como noutras circunstâncias o êxtase é derivado de uma encharcada ou de umas migas gatas. Outras músicas trazem memórias de gente, de épocas, de verões ou de localidades, o que quer que seja.

Nelson Ned morreu neste domingo, parece-me. O seu nome é desconhecido de grande parte da população portuguesa, e o seu falecimento foi ainda obscurecido por igual destino de Eusébio da Silva Ferreira, no mesmo dia. Não se falou nele, e só tive conhecimento do infausto acontecimento porque me atiro ao zapping como o Dr. Mário Soares se atira ao disparate: com denodo e pundonor. Foi num canal brasileiro com numeração elevada na MEO que soube da sua morte, aos 66 anos.

Em 1969 eu ouvia o Quando o Telefone Toca, um programa radiofónico diário protagonizado por Matos Maia. As pessoas telefonavam, diziam uma frase, pediam um disco e, perante um ligeiríssimo enfado do locutor, dedicavam a faixa pedida. Eu seguia o programa com alegria e interesse juvenis, e quem atentasse em mim - o que não deveria acontecer - já vislumbraria sinais de um kitsch preocupantemente assumido. 

Deixo-vos com dois heróis do programa acima citado, porque pedidos numa frequência quase diária: Nilton César, ainda no reino dos vivos, e Nelson Ned, já encantando a corte celeste. Ouvir as faixas é recuar 44 anos, encostando um hipotético ouvido a telefonias cuja sintonia poderia ser um trabalho de ourives. Era para mim um tempo incertamente feliz, visto mais de quatro décadas depois. Havia o programa que me distraía mas, em horário escolar, dominava o castigo corporal, porque canhoto e apuramento da raça eram conceitos não associáveis. E havia a dificuldade em dizer, num alemão escorreito, de que se compõe o aparelho digestivo da vaca e a dentição do coelho. 

Posso dizer a frase?

JdB
   


2 comentários:

Anónimo disse...

ficou a arte da relojoaria, agora ao serviço das letras

Anónimo disse...

95% das vezes o diálogo era assim:
Olhe, é o Sr. Matos Maia? Sou,sim.
Olhe,posso dizer a frase?
Olhe, posso pedir um disco? Para isso é que ligou, dizia o Sr. Matos Maia já enfadado.
SdB(I)

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