segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Vai um gin do Peter’s?

Um dos heterónimos de Fernando Pessoa (1888-1935) – Alberto Caeiro – dedicou um longo poema ao «Menino Jesus», no seu estilo aparentemente descomplicado e directo, por vezes áspero, revelando muito sobre a riqueza incrível do nascimento de uma nova vida e, mais ainda, sobre a riqueza profunda e intemporal do Bebé de há dois mil anos, ainda hoje (escreve o poeta) tão presente na alma humana.

Segundo A.Caeiro, foi:
O Amigo que o fez poeta, dando significado e encanto à realidade que, frequentemente, o feria e entediava;
Quem fez valer a pena viver, a ele, o poeta amargurado;
O Companheiro dos momentos mais indecifráveis de um homem triste e solitário, demasiado distante daqueles com quem se cruzou;
A Voz íntima que lhe incutiu algum ânimo, a ele, tão assediado pelo desespero;
O Mestre que, pacientemente, lhe desvendou a beleza incrível da vida, a ele, a quem a existência diária parecia atrapalhar a realização do maior desejo da sua alma.

Apesar de pouco acreditar na matéria palpável que tecia a trama do seu dia-a-dia, este heterónimo de Pessoa retratou aquele Amigo pequenino com os traços mais espantosos que o coração humano pode descobrir no Outro, capaz de nos preencher em pleno:

«O (Menino Jesus) dorme dentro da minha alma…
Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.
Ele é o humano que é natural…


E é por que anda sempre comigo que eu sou poeta sempre…

A Criança Nova que habita onde vivo
Dá-me uma mão a mim / E outra a tudo o que existe
E assim vamos… / G
ozando o nosso segredo comum
Que é saber por toda a parte… / Que tudo vale a pena. (…)

…A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as coisas.
Aponta-me todas as coisas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão
E olha devagar para elas…»

                              In Poema do Menino Jesus,  Alberto Caeiro


No final do poema, que tem a ousadia de percorrer toda a sua vida, A.Caeiro não se esquiva ao encontro derradeiro com a Criança que vive na sua alma, aludindo à hora mais desafiadora da humanidade – a morte: «Pega-me tu ao colo / E leva-me para dentro da tua casa. / Despe o meu ser cansado e humano / (…) E dá-me sonhos teus para eu brincar / Até que nasça qualquer dia / Que tu sabes qual é

O Menino que, nesta composição, irradia tanta alegria, podia pertencer aos presépios festivos e coloridos do grande escultor português do século XVIII – Machado de Castro. Reunindo inúmeros núcleos da vida de Jesus e das gerações posteriores, o artista moldou peças minuciosas, onde se desenrola uma longa narrativa histórica, representada em diferentes socalcos, para melhor diferenciar episódios expressivos do quotidiano e apresentar um mostruário variado de perfis humanos. Quase um tratado de sociologia, em três dimensões. A partir do núcleo central da adoração, surgem outros núcleos, formando um mosaico de cenas unidas pelo mesmo fio condutor que emerge da Gruta de Belém. Quanto mais afastadas do centro, mais reina a distracção e até a agressividade. Ainda assim, todas estão, misteriosamente, ligadas ao ser mais ínfimo do conjunto, Aquele que torna tudo possível…         

Se em 2014 formos capazes de (re)descobrir o Menino que anda sempre connosco, é provável que o Novo Ano ganhe um sabor bem melhor, como experimentou o poeta. Bom Dia de Reis!

Maria Zarco

(a  preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)


Presépio de Machado de Castro na Basílica da Estrela – núcleo da Adoração, séc.XVIII.

2 comentários:

Anónimo disse...

Li com muito gosto.
Bom Ano.
fq

Anónimo disse...

Obrigadíssima pela sua mensagem, desejando-lhe também um óptimo 2014, MZ

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