quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Crónica de um universitário tardio

Comecei 3ª feira a minha pós-graduação em Artes da Escrita (Universidade Nova). Um frémito de emoção percorreu-me o corpo quando me sentei numa sala da faculdade, 28 anos depois de me ter levantado de outra. Gente vária solidarizou-se comigo nos dias precedentes. Recebi votos de bom regresso às aulas, percebi a paciência infinita com que me aturaram os nervos, recebi conselhos sábios  sobre a grafite e os vários tipos de lápis, na penumbra de uma capela houve quem rezasse: que chegue depressa e bem..., manifestou-se por aí uma preocupação estética quanto ao aprumo do meu cabelo, a brancura dos meus dentes, a qualidade da minha água de colónia, o brilho dos meus sapatos, a dimensão da minha impressividade. O ministro Relvas indagou se queria réguas e esquadros (aventais presumia que não...) assegurando-me que, por ele, a qualidade da minha escrita já valia um doutoramento. 

O primeiro dia foi interessante. O local indicado para a primeira aula estava desactualizado dois minutos antes, as portas estavam identificadas como gabinete (que na minha gíria é diferente de sala), mandaram-nos para um anfiteatro (identificado como auditório) de onde saía um magote de estudantes que respiraram largos minutos, com cadência e vagar, num ambiente fechado. Imagine-se a qualidade do ar legado. Dez minutos depois da hora formava-se uma turma composta por 20 pessoas, talvez, e um professor parecido com o sportinguista Pedro Barbosa, de quem diziam ser um falso lento. A esmagadora maioria dos meus jovens colegas vem de áreas ligadas à literatura. Mas havia dois professores, uma psicóloga, uma secretária, uma arquitecta, talvez, dois brasileiros, e este vosso criado. Muitos se apresentaram evidenciando o gosto pela leitura e pela escrita, deveras curioso numa pós-graduação deste tipo. Eu disse que vinha para aprender, o que me pareceu ser uma banalidade equivalente. Mencionei o livro que tinha escrito, designando-o como vagamente auto-biográfico. Expliquei, a pedido, que estava classificado na FNAC como espiritualidade ou auto-ajuda, já não me lembrava. Referi que talvez não ladeasse os da Alexandra Solnado. Houve risos, não sei se relativamente a mim, se à autora que diz falar amiúde com Jesus. Telefone que Ele atende.

A primeira aula intitulava-se Poética Contemporânea. Um dos colegas mencionou o seu gosto pela poesia contemporânea, o que provocou um esgar quase imperceptível de desconforto no professor. Afinal, não é de poesia, no sentido mais corrente, que iremos falar, mas de um certo modo de fazer as coisas. Investigue-se a origem etimológica da palavra poesia e perceber-se-á o engano. Perguntar-me-ão de que falámos. Falou-se pouco (sempre era a primeira aula), mas mencionou-se o modernismo, Rimbaud, Jorge Luis Borges, a ideia de autor e de destruição do dito, a noção de contemporâneo, alguns textos que irão ser discutidos, trabalhos futuros, etc. 

Com um curso de engenharia, uma certa mente técnica, e 20 anos de fábrica, ainda pairo um pouco. O meu processo mental está perro, e tenho de me desabituar de conceitos que me são familiares, como processo produtivo, outputs e eficiências, prazos e redução de custos. Tenho de me desabituar, no fundo das coisas palpáveis. O abstracto (ainda) mexe comigo. A ver vamos, como diria o ceguinho... Para já parto, não de flor ao peito, como diria o poeta, mas com entusiasmo, que não é mais do que a ingenuidade dos limitados.    

JdB  

5 comentários:

ACC disse...

Espero ter a oportunidade de o ir lendo ao longo deste ano. Vai ser bom vê-lo a desconstruir, para com as inseguranças de quem sabe alguma coisa, voltar a construir. Sei que vai valer a pena.

LA disse...

Seguirei atentamente o progresso! Buona fortuna e buon lavoro.

Anónimo disse...

Entusiasmo a ingenuidade dos limitados? Oh JdB, não concordo nada. Ou melhor, é uma definição. E até a percebo. Mas também poderá ser: entusiasmo é a capacidade de tirar partido da vida.. é a sorte dos audazes... é cor que se segue à descoberta. Mas, mais que tudo, parece-me, é um dom. É o dom de escolher entusiasmar-se. E ao escolher entusiasmar-se, a pessoa entusiasma-se mesmo. Bjs. pcp

Anónimo disse...

Aguardo ansiosamente as cenas dos próximos capítulos. Quando estiver em exames podemos combinar manhãs de estudo, agora que se juntou aos estudantes universitários (embora haja uns de 1ª e outros de 2ª). MFM

arit netoj disse...

Este novo ciclo promete!
Só hoje consegui aqui vir mas valeu a pena. Sente-se logo outra inspiração, outra motivação.
Continue a incluir-nos nesta estimulante experiência.
Beijinhos

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