sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Textos dos dias que correm


De que falamos quando falamos de santidade
Sophia de Mello Breyner naquele conto tão conhecido, “O retrato de Mónica”, explica que a poesia é-nos dada uma vez e quando dizemos que não ela afasta-se. O amor é-nos dado algumas vezes, e também se o recusamos ele distancia-se de nós. Mas a santidade é-nos dada todos os dias como possibilidade. E se a recusamos teremos de a recusar todos os dias da nossa vida, porque quotidianamente a santidade se avizinha de nós.
Contudo, fizemos da santidade uma coisa tão extraordinária, abstrata e inalcançável, que quase não ousamos falar dela. Muito menos no espaço público. De certa forma, habituamo-nos a olhar para a experiência cristã como que acontecendo a duas velocidades: o caminho heróico dos santos e a frágil estrada que é aquela de todos os outros, e por maior razão a nossa. Ora esta conceção de santidade não pode estar mais longe daquilo que a tradição cristã propõe, pela qual pugnou e pugna. O Concílio Vaticano II, por exemplo, deixa bem claro: a santidade é vocação mais inclusiva e comum. Mas é preciso entender de que falamos quando falamos de santidade.
Bastar-nos-ia certamente ler as bem-aventuranças. Jesus não diz que os bens aventurados são os outros, os que não estão ali. Jesus olha para a multidão e começa a dizer: “bem-aventurados vós os pobres”, “bem-aventurados vós os aflitos”, “bem-aventurados vós os misericordiosos”. O que é que isto quer dizer? Que são, no fundo, as nossas pobrezas, fragilidades, aflições, mansidões, procuras de justiça, sedes de verdade, a nossas buscas por um coração puro, que dão a substância da bem-aventurança, a matéria da santidade.
É naquilo que somos e fazemos, no mapa vulgaríssimo de quanto buscamos, na humilde e mesmo monótona geografia que nos situa, na pequena história que dia-a-dia protagonizamos que podemos ligar a terra e o céu. Falar de santidade em chave cristã passou a ser isso: acreditar que a humanidade do homem se tornou morada do divino de Deus.

José Tolentino Mendonça
. Tirado daqui

3 comentários:

ACC disse...

Fico mais descansada, porque com este texto começo a perceber que afinal há muita gente, mesmo muita gente de todos os credos e religiões que procura diariamente a santidade.
Há muitos que conseguem, não porque lhes tenham ensinado que deveriam agir assim, não! Provavelmente e apenas porque não sabem para e porque estão aqui.
Nascemos sem explicações, sem livro de instruções e sem destino objectivamente traçado e essas pessoas que procuram intrinssecamente a santidade andam, provavelmente, á procura de um sentido na vida...os outros.

Bom dia JdB
Belo texto e obrigada por nos lembrar esta coisas simples

Maf disse...

Belissimo texto, este, do Pe.Tolentino. Era exactamente isto a que eu me referia no comentário que fiz ao Post do JdB, no último Domingo, só que não saberia explicar tão bem.
Obrigada João. Obrigado Pe. Tolentino. Textos destes dá-nos força para não desistirmos de procurar a santidade.
Maf

Anónimo disse...

Subscrevo a Maf.
Extraordinário texto, até pela (aparente) simplicidade.
Obg
fq

Acerca de mim

Arquivo do blogue