quinta-feira, 2 de julho de 2015

Textos dos dias que correm

Como a mim mesma

Já lá vai o tempo em que o amor me preocupava, agora penso.
Ganho, perco, poupo tempo a pensar.
Olho o lago e o cisne e a flor, e digo: nunca me bastaram.
Olho as pessoas e as coisas, e digo:  nunca me bastaram.
Olho-me e digo:  nunca me bastei.
De que precisaria, então, para me bastar?
Para fruir a saúde, os outros, a vida?
Que me faltou, quem me impediu?
Quem me ensurdeceu à própria voz?
Porque não escutei o meu  grito de socorro?
Não me estendi a mão?
Me deixei cair, despenhar?
Quem, além de mim, posso culpar?
Às vezes, digo:  foi esta vontade de ser amada
Esta servidão à vida e aos outros
Esta mendicância de mimos, de palmas
Este sol, esta luz, este vinho 
Estes pães-de-ló da minha infância
Este pai, esta mãe, estes meus irmãos
Este País ajoelhado, esta poesia queixosa, esta saudade trágica!
Esta, sobretudo esta, inferioridade!
Outras vezes, penso:  foi pena.
Ninguém me ter dito que era a mim que eu deveria beijar.
Amar, perdoar, mimar.
Foi pena ninguém me ter dito que não era com os outros, mas comigo, que eu teria de viver.
Mais.
Sempre.
Inescapavelmente.
Até que a vida, enfim, me separe.
O corpo da alma, os outros de mim.
Pois não há moeda.
Poder.
Divórcio, viuvez.
Não há, sequer, invalidez.
Que nos aparte, nos desmembre.
Nos liberte de nós.
Nascemos ao mesmo tempo.
Morremos ao mesmo tempo.
Eu e eu.
Os meus talentos, os meus aleijões.
Os meus lamentos, as minhas pulsões.
Que aprenda, então, a viver comigo.
A seduzir-me, a saborear-me.
Para que a minha companhia me compraza sempre.
Que, na dificuldade de me odiar, aceite amar-me.
E que, desse amor, possa nascer um novo fruto.
Um novo eu.
Um novo gosto em estar comigo!
Não é, aliás, facultativo.
Se o fosse, não estaria aqui.
Viver comigo é longo, interminável.
Imposto, indeclinável.
E as fugas a mim mesma têm custo.
Um custo em euros:  viagens, restaurantes, farpelas, piscinas.
Um custo em vida: vícios, neurastenias, miomas, manias.
Não basta o sangue, o mesmo sangue.
É preciso amizade.
Uma grande e superior amizade.
Despede-se um conhecido, derrota-se um inimigo.
Não nos livramos de nós.
Só com uma grande e superior amizade nos suportamos.
Nos resignamos, nos perdoamos.
É preciso, pois, fomentar um sentimento.
Siamês, visceral.
Uma robustez marsupial.
Para carregar o mesmo corpo, a mesma casa.
A mesma carne, o mesmo Deus.
Pecados, corrupções. Anticlerical anticlerical
Batotas, desilusões.
E nunca o eu se zangar comigo.
E nunca o eu se fartar de mim.
Por estar preso, cravado.
Sobreposto, agrilhoado.
Condenado a si mesmo e àquilo a que chama solidão.
Solidão?
Nunca estou só, estou a meu lado!
E deveria bastar viver assim.
Permanentemente acompanhado, apaixonado:
- Amo-me. Amo-me tanto!
Sozinho, é quem se cansa de si mesmo.
Se sente um desprazer, uma doença.
Preciso, então, urgentemente, de me amar.
Tanto, tudo.
Assolapada, veementemente. 
Para que enfim me baste, me desprenda.
Não precise, não dependa.
E que o outro não seja, afinal, mais do que eu.
Que seja incógnita. Que seja novidade.
Que seja pista, luz, alternativa.
Menos, tanto, mas nunca mais.
Já lá vai o amor em que o tempo me preocupava, agora amo-me.
Se nada nem ninguém me bastou o que me faltou fui eu.

Rita Ferro

3 comentários:

Anónimo disse...

Meu caminho é por mim fora,

até chegar ao fim de mim

e encontrar-me com Deus...

Mas lá no fim

eu vou sentir-me tão outro,

tão igual

ao Senhor Deus que ali mora,

que hei-de ficar convencido

de que afinal

só Tu Senhor!, lá estás

e que eu fiquei para trás...

Cá vai Deus a remar

e eu a ser um remo com que Deus

rasga caminhos pelo mar...


Sebastião da Gama

Anónimo disse...

Comigo me Desavim

Comigo me desavim,
Sou posto em todo perigo;
Não posso viver comigo
Nem posso fugir de mim.

Com dor da gente fugia,
Antes que esta assi crecesse:
Agora já fugiria
De mim, se de mim pudesse.
Que meo espero ou que fim
Do vão trabalho que sigo,
Pois que trago a mim comigo
Tamanho imigo de mim?

Sá de Miranda, in 'Antologia Poética'



rita ferro disse...

:-)

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