terça-feira, 14 de julho de 2015

Dos clubes ingleses e dos estatutos

Um clube ao estilo inglês - isto é, só de homens - é uma agremiação que permite, entre uma infinidade de outras, três coisas: (i) dizer mal das esposas, (ii) contar anedotas ordinárias e (iii) falar brejeiramente sobre mulheres, esses seres sem os quais, dizia o Herculano, o mundo seria um ermo melancólico. Talvez não se usem nunca essas prerrogativas e, no entanto, elas estão disponíveis, o que faz toda a diferença. A satisfação do clube - mas também pode ser um trio de cavalheiros (atenção à potencial entropia dos quartetos) que se juntam para repastos regulares - está na possibilidade do benefício, não na utilização do benefício. Até porque, em bom rigor, o limite aceitável para uma anedota ordinária - para qualquer anedota, aliás - deveria ser 1. Tudo o resto é uma ameaça à riqueza das nações, ao frágil equilíbrio de humores internos, ao são convívio entre seres da mesma espécie.

Perdi-me, sigo por outro caminho.

Há anos, perante uma constatação lamentosa, um amigo proferiu uma frase certeira: as mulheres estão programadas para nos ver sair de lancheira de manhã para o trabalho. A expressão "lancheira" era uma alusão datada, mas veio a ser estranhamente premonitória dada a profusão de trabalhadores que, face à exiguidade dos recursos e aos 23% de IVA sobre a vitela à Lafões, acomodam uma costeleta da véspera num recipiente de plástico com paredes adiabáticas. O homem sai de lancheira, como já saiu de mala de cabedal, como saiu com uma lança ou uma arma de fogo para prover o sustento da família. O homem sempre saiu, é isso que se espera dele. É isso que ele espera de si próprio. Homens e cães fora de casa, diz a sabedoria popular.

O estatuto profissional dos homens veio-lhes via empresa onde se tornaram gestores, chefes de departamento, líderes de topo com ambições a reuniões regulares em salas almofadadas e de madeiras exóticas. O estatuto caseiro veio-lhes via tradição, alcandorando-os a chefes de família com autoridade para decidir os caminhos (eles é que sabiam onde andava a caça...). Os outros estatutos chegaram-lhes via agremiações, igrejas, jogos de golfe, carros com motores ronronantes e carroçarias aerodinâmicas. O estatuto, sempre o estatuto.

A crise (e outras circunstâncias) alterou esta realidade. Muitos homens viram-se remetidos ao desemprego, às falências, às ausências de promoção, aos trabalhos menos vistosos. O estatuto profissional evaporou-se, o caseiro seguiu o mesmo caminho, os outros idem idem aspas aspas. Muitos homens combateram simultaneamente em várias frentes: o descaminho dos gozos mundanos, as carências financeiras, as opções de vida que fecham portas, as perdas disto e daquilo. Acima de tudo tiveram de lutar contra o desaparecimento (inconsciente, por vezes) de estatuto, algo que pode ser mais mortificante do que uma redução de 50% no vencimento. O estatuto é uma gaita. Podemos já não o querer porque existe a idade, outras satisfações ou prioridades, blábláblá. Mas ele - o estatuto - martiriza-nos, leva-nos a pensar que somos olhados de uma forma especial, conduz-nos ao embaraço, ao incómodo, às refeições tensas feitas de assunções erradas, às explicações exaustivas que nunca ninguém pediu. 

A vida moderna fez incidir um peso demasiado sobre o sucesso: o carro, os fringe benefits, o ordenado, as reuniões de alto nível. Ninguém nos pergunta - a nós, homens - se somos felizes, se a nossa existência toca a vida dos outros, se é fonte de gozo, de paz, de  exemplo. Talvez o estatuto que advém da imaterialidade, da intangibilidade (porque a paz e a felicidade nossa ou dos outros não se palpa) devesse ser mais valorizado. Talvez muitos homens merecessem esse descanso, para seu bem e das famílias que os rodeiam.

Comecei a falar de clubes ao estilo inglês e já não me lembro porquê...

JdB    

2 comentários:

Anónimo disse...

O estatuto é uma gaita, escrevo JdB
Talvez, porém, o estatuto de que fala , seja antes uma flauta mágica, pelo menos a medir pelos muitos ratos que sempre seguem o flautista.
Esse estatuto de que fala chama-se poder e o poder é quase tudo , inclusivamente, afrodisíaco, pelo que como bem refere no início, o tema são anedotas mais ou menos sórdidas.
Tem pois razão, como quase sempre, diga-se em seu merecido abono.

Anónimo disse...

Sempre houve e sempre haverá lugares para homens e mulheres se reunirem e conversar. Cada sexo com o seu estilo próprio. Conforme os tempos, as cousas mudam — tasca, pastelaria, café, lugar da fruta, etc. Cada sexo tem as suas necessidades de convívio, que se devem conhecer e nunca guerrear.
A casa também é lugar previlegiado mas tem de ser cuidado melhor do que o bar do Ritz.
"Formal courtesy between husband and wife is even more important than it is between strangers." Robert Heinlein.

Abraço

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