segunda-feira, 20 de julho de 2015

Da morte

Sábado estive num casamento. Na minha ronda social conversei com uma amiga antiga cujo marido passou por um delicado momento de saúde há alguns meses. Ambos são rapaziada da minha idade. Percebi que quis conversar sobre o tema - os pormenores, o impacto na família, a confidencialidade que quiseram manter, a recuperação, a forma como todos se uniram para dar a volta à situação, a sorte de terem encontrado a gente certa no momento certo. Falámos também da fragilidade da vida - a diferença entre estar vivo e morto (e a frase pode ser metafórica) que pode ser uma fracção de instante. Falámos da relativização das coisas e também da minha própria história de vida. A dado instante, no seguimento de uma ideia expressa, perguntou-me: tem menos medo da morte? 

Ontem de tarde, no remanso do meu domingo, telefona-me um amigo próximo: era para te dizer que morreu a AR. A pessoa em questão era muito minha amiga na fase dos 18 anos, por aí. Nascêramos no mesmo ano e socializávamos no mesmo grupo de amigos, alguns dos quais ainda mantenho, outros que encontro menos mas gosto sempre de rever. A vida da AR e das pessoas mais próximas tem contornos de menor felicidade. A saúde degradou-se, e talvez ela tenha contribuído para isso. O que quer que seja, foi minha amiga e era do meu ano. Desaparece a alguns meses de cumprir os 57.

Não sei qual a idade certa para se morrer, nem sequer sei discutir esta hipótese aparentemente absurda. Há quem diga que não quer viver sem autonomia, dependente dos outros para se vestir, andar, cumprir as necessidades mais básicas. A AR, por aquilo que ia sabendo, que não a via há uns bons anos, talvez não fosse dependente, mas talvez não fosse totalmente autónoma. O que é que isso nos diz? À distância nada. Apenas que morreu antes de tempo para as pessoas que gostavam dela.

Um escritor russo dizia que os Homens não receiam a morte, mas o instante antes dela. O que nos faz ter menos medo da morte (ou do instante prévio)? Uma experiência difícil? A ideia de relativização das coisas? Uma fé enorme? Para mim, e escrevi-o, pelo que não revelo nada de confidencial, é saber quem tenho à minha espera: alguém em que penso todos os dias, a todos os momentos. É essa certeza.

JdB 

2 comentários:

Luísa A. disse...

Um escritor português diz que Deus nos envia o sofrimento para nos reconciliar com a ideia da morte. Penso que sim. Mas termos alguém do outro lado - e cada vez temos mais - também ajuda. Um bj

JdB disse...

Luísa: obrigado pela sua visita, é sempre bom sabermos que somos visitados por velhos amigos, mesmo que seja da blogoesfera. Gostei de visitar o seu espaço. Já não sei se o conhecia e se o tinha perdido de vista nas mudanças de computadores, ou se é novo. É sempre um gosto visitar Lisboa através do seu olhar e daquela (ainda é?) máquina simples, pouco sofisticada, facto que esmaga ainda mais os aprendizes de fotografia.

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