quarta-feira, 30 de março de 2016

Da ansiedade e da divina providência



Tudo isto me importa muito, porque o tema maior da minha reflexão é a ansiedade e julgo que a Divina Providência pode ser relacionada e ser, até, uma chave para a sua resolução.

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Como relacionar ansiedade e divina providência? Como fazer com que esta resolva aquela? O meu primeiro ímpeto é da ordem da impossibilidade: não são relacionáveis duas coisas se uma delas não existir. Ora, na minha ideia, a divina providência - pelo menos no sentido que lhe é dado vulgarmente - não faz parte de nenhuma realidade material ou imaterial. Assim sendo, não posso relacionar algo que está no domínio da medicina com algo que está no domínio da fezada

O Salmo 65 (64), chamado muito a propósito Hino a Deus Providente,  é considerado um salmo colectivo de acção de graças: Deus acalma "o bramido dos mares, a fúria das ondas e o tumulto dos povos", cuida da terra e torna-a fértil, amolece as terras com chuvas abundantes e abençoa as sementeiras. "Os campos cobrem-se de rebanhos, e os vales enchem-se de trigais. Tudo acalma e grita de alegria." O salmista quis agradecer ao Criador as maravilhas que Ele lhe tinha dado.

O salmo é a visão de um mundo idílico oferecido por Deus, um paraíso onde não há culpa nem maldade, onde "brota a abundância", e o Homem vive uma riqueza sem par nem limite. É um mundo que não existe? Existe sim -  como concepção teórica da perfeição, não como realidade terrena atingível.

(E talvez também por isso utopia signifique lugar que não existe).

Deus deu-nos tudo, mas também nos deu a liberdade, o livre arbítrio, a humana imperfeição, com os quais destruímos a possibilidade de observar, na nossa caminhada na Terra, "as pastagens do deserto" que vicejam. O Deus providente é, portanto, o Deus que tudo nos disponibiliza, tudo nos oferece. É um Deus que dispõe e propõe, não que impõe ou garanta. 

"E Deus viu que isto era bom", diz o Livro do Génesis, que acrescenta: "Deus criou o ser humano à sua imagem, criou-o à imagem de Deus". Isto significa que Deus, de facto, criou um mundo bom ou, na expressão do meu interlocutor, um "Universo Simples, Próximo e Justo." A criação do mundo é uma bola que Deus põe em movimento para depois se afastar, deixando que o Homem tome conta de tudo. Deus não é mais (passe a ironia de um ser que é Tudo) do que um "prime mover".

A ideia que me é mais mais próxima da divina providência é a confiança que nos dá Jesus Cristo, tão bem retratada na parábola dos lírios do campo (Lc, 12, 22-31) que não fiam nem tecem, mas que nem Salomão, em todo o seu esplendor, os conseguiu imitar na vestimenta. "Não vos inquietais", diz ainda o evangelista.  Eu sei que haverá quem discorde, mas a divina providência é a confiança. Temos de fazer pela vida, mas há algo que nos transcende, que não dominamos: uma fracção da vida que está nas mãos do destino, de uma análise médica, de uma curva na estrada, de uma distracção ou de um azar, de um relance de olhos que define um futuro. Confiar e ter a preocupação a um nível equilibrado, é que nos é pedido. E não é pouco.    

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Não sou especialista em ansiedade. Vou imaginar que ela existe como patologia ou como estado momentâneo, ou mesmo persistente, fruto de uma característica própria. Para a primeira haverá medicamentos, terapias ajustadas, ajuda profissional. Para a segunda, haverá a divina providência na forma da confiança no futuro, não num Deus que tudo resolve ou que impede que as maldades cresçam e as doenças matem.  Porque Deus, de facto, não actua assim.  Embora possa fazer tudo, permite que tudo aconteça.

"Agora vemos como num espelho, de maneira confusa; depois veremos face a face. Agora, conheço de modo imperfeito; depois conhecerei como sou conhecido" (Cor, 13, 12). Quando virmos face a face seremos então confrontados com o Universo Simples, Próximo e Justo. Até lá, resta-nos a confiança e os olhos postos num paraíso que conquistamos na Terra, mas que só viveremos no Céu.   

Relacionar o transtorno de ansiedade generalizada (considerada uma doença) com a divina providência é um desafio intelectual para o qual não tenho bagagem, não obstante saber que a confiança gera optimismo e que o optimismo é fundamental para a cura de qualquer doença. Embora também saiba que optimismo e ansiedade parecem ser contraditórios em termos... 

JdB

Nota (escrita no dia seguinte ao de elaboração deste texto, porque lido no evangelho de hoje): (...) "Mas eles convenceram-n’O a ficar, dizendo: «Ficai connosco, porque o dia está a terminar e vem caindo a noite». Jesus entrou e ficou com eles.". Este é o apelo à divina providência.   

1 comentário:

Anónimo disse...

Seguramente que se trata da «confiança» , porém talvez não em Cristo , mas em Deus.
A divina providência é um tema da Criação e não da Experiência de vida.
Recordo , JdB, o seu texto sobre mecanismos, o mecanismo universal é a máquina que batizámos Divina Providência.

Otimismo e ansiedade não só não são contraditórios, como podem ter entre si uma relação de causa efeito , recíproca e até com uma intensidade avassaladora.


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