quarta-feira, 16 de março de 2016

Das definições de caudal

No Verão de 1984 acabaria o meu curso de engenharia; no Verão de 1986 entraria para uma fábrica de gelados, como supervisor de produção. No entretanto, coisas profissionais dispersas e de menor interesse para este fim em vista.

A produção de gelados não era, naquele Agosto já longínquo, uma actividade científica do tipo bimby: x minutos, y temperatura, z velocidade. A textura da massa com que se fazia o produto final requeria conhecimentos; a incorporação do ar na própria massa era uma acção vedada a iniciados; a afinação das máquinas era uma actividade para gente de um gabarito superior com uma classificação profissional prosaica - condutores de máquina.  

Um dia, face à dificuldade em atingir a qualidade desejada no primeiro fabrico de um produto novo, arrisquei junto a colegas um vislumbre de solução que passava pela definição de caudal: volume de fluido que passa numa dada secção de tubagem numa determinada unidade de tempo. Não achei necessário acrescentar que se media em metros cúbicos por segundo... Talvez me tenham olhado (não é certo, porque eu era um recém-chegado) - uns com estupefacção, outros com indiferença. Em nenhum olhar senti que a minha definição acrescentasse valor à discussão, nem abrisse portas para um desfecho favorável. Teria eu dito alguma asneira? Teria confundido a definição de caudal com a segunda lei da termodinâmica? Eram as unidades que estavam erradas? Não, nada disso. A definição estava correcta, orgulhosamente fresca na memória de um curso quase acabado de fazer, mas não acrescentava um avo à resolução do problema. A definição não era mais do que um papaguear teórico, e ali pretendia-se um equilíbrio fino ao qual se chegaria por via de uma experiência, não de uma definição.  

Olho para os meus colegas de faculdade: gente com valor intelectual, com vontade de aprender, com uma certa cultura que eu não tenho agora e não tinha naquela idade. Olho para eles e sou eu, mas em 1986 a assistir, com gente menos formada academicamente, mas mais experiente, ao nascimento difícil de um novo gelado, como se assistisse a uma nova vida que nasce e, perante aquele mistério indizível, só me ocorresse dizer: parto, conjunto de fenómenos fisiológicos... 

Ser-se estudante muito novo (os meus colegas) apresenta este problema: só se conhecem os conceitos; no extremo oposto, ser-se estudante muito velho (o meu caso) apresenta este problema: só se conhece a vida. Os meus colegas sabem tudo sobre o patético (do grego pathetikós, comovente) mas, se a vida for minimamente justa, nenhum deles saberá o que é o sofrimento (em grego pathos). Eu, que já provei desse veneno, luto com dificuldades na compreensão do que Schiller quis, na verdade, dizer sobre o assunto. Os meus colegas começam uma corrida que não sabem terminar; eu termino uma corrida que comecei a meio...

A vida não é uma máquina de fazer gelados, embora esteja mais próxima de ser isso do que uma bimby, na qual quase tudo é uma ciência assente no cumprimento firme de um manual de instruções claro. A vida é saber-se o que é o caudal, mas é também perceber-se que o desempenho daquela máquina específica obedece a sensibilidades próprias. Se soubéssemos o conceito e o tivéssemos vivido talvez fossemos melhores. Ou talvez não.

Em 1986 o gelado acabou por sair, provavelmente sem que ninguém quisesse saber o que eu tinha para dizer sobre conceitos teóricos, o que não é despiciendo.
  

JdB

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