segunda-feira, 7 de março de 2016

Vai um gin do Peter’s?

Naqueles típicos balanços do ano para a esperada eleição da personalidade mais marcante de 2015, a National Geographic (NG) surpreendeu tudo e todos com a sua escolha, anunciada em Dezembro, mesmo antes do Natal. Era, aliás, a figura de capa da conhecida revista americana: uma mulher conhecida da maioria, apesar de ter morrido há perto de 2000 anos. Pelo menos, notoriedade não lhe falta, sobretudo no Ocidente.
Considerar «a mais poderosa do mundo» alguém tão longínquo na história parece insólito. Até porque a formulação da NG tem a ousadia de lhe reconhecer a máxima actualidade. Talvez as notícias mais recentes, relacionadas com a figura escolhida, ajudem a perceber esta eleição por parte de um media especialista em viagens e em explorar o desconhecido. Também ocorre designar a mesma figura de global trotter, no sentido de ser a maior e melhor viajante do planeta, ainda hoje, pelas mesmas razões por que a National Geographic a considera poderosa e, sobretudo, tão actuante, no presente:    
Segundo a repórter da NG, Maureen Orth, que viajou pelo mundo durante um ano a recolher testemunhos para a reportagem: «What made the biggest impression on (Maureen Orth) while interviewing people for the article was Mary’s universal appeal across diverse cultures (…) Mary is the ‘hope and solace of so many people, including Muslims’, she said. The Muslim appreciation of Mary, as a ‘holy woman of God,’ she told Catholic News Service, ‘is a bridge that ought to be explored,’ especially in this time of strife caused by religious extremism.»
A 12 de Fevereiro deste ano, nova surpresa e, de novo, Maria envolvida no caso: numa sala do aeroporto de Havana, o Papa Francisco e o Patriarca Kirill de Moscovo e de Todas as Rússias encontraram-se pela primeira vez, após o Grande Cisma do Oriente, em 1054, quando a Igreja Ortodoxa se separou do resto da Cristandade. Sim, trata-se de mais uma história milenar (ainda assim, pouco para uma Senhora bimilenária), com a particularidade de só serem conhecidos dois episódios públicos, com 1000 anos de intervalo e sem nenhum dos envolvidos ter perdido o fio à meada. Convenhamos que é, no mínimo, atípico em seres humanos, esta relação tão paciente e ampla com o tempo.
Na troca de presentes entre Francisco e Kirill, Maria era o melhor presente vindo das terras geladas da Rússia para descongelar uma relação que parecia ter ficado petrificada no frio. Afinal, não! Por essas e por outras, a NG a considera tão poderosa.
Passo ao artigo gentilmente cedido por familiar próximo, que explica o percurso atribulado de um ícone muito viajado, com Portugal incluído no itinerário, antes de ter aterrado em Cuba:
 «A mulher mais poderosa do mundo», foi o título de capa da edição americana da «National Geographic» de Dezembro passado. No interior, a revista trata o tema profissionalmente. Documentou-se e convence: mesmo descontando milagres e aparições, o poder da Mãe de Jesus chega a definir a identidade de povos inteiros. Nem sequer a rainha de Inglaterra se compara! Notícia que deixou os leitores norte-americanos impressionados e teve grande eco na imprensa.
Na viagem ao México, Francisco brincou com o assunto: até os mexicanos ateus se identificam com a mensagem de Nossa Senhora em Guadalupe. Quanto mais ele, Papa! Na viagem de ida anunciou: «O meu desejo mais íntimo é ficar a olhar para a imagem de Nossa Senhora de Guadalupe, um mistério que se estuda, estuda, estuda e continua sem explicação… é uma coisa de Deus». O Papa referia-se a algumas características daquela imagem que ainda hoje não se conseguem imitar, mas o importante para ele era ficar a olhá-la e saber-se olhado. O santuário percebeu o recado e colocou-lhe uma cadeira em frente da imagem, para que o Papa se demorasse ali, quase sozinho. Quando os jornalistas lhe perguntaram o que tinha estado a rezar durante aquele tempo todo, Francisco desvendou uma ponta, mas guardou o resto: «…as coisas que um filho diz à sua querida mãe são um segredo!».
Na escala anterior, em Cuba, o Papa tinha-se deparado com outro sinal impressionante do poder de Maria. É uma longa história, com passagem por Portugal: o ícone de Nossa Senhora de Kazan que o Patriarca Kirill ofereceu ao Papa.
O ícone de Nossa Senhora de Kazan
A imagem original, pintada em data incerta, esteve vários séculos no mosteiro de Kazan e dela se fizeram muitas reproduções, em igrejas espalhadas pela Rússia. Despareceu em 1209, nas guerras, e foi recuperada em 1579, nos escombros de um incêndio, em circunstâncias miraculosas. Tornou-se então a referência da Rússia, a salvadora da pátria: primeiro contra os polacos; depois contra os suecos; a seguir contra Napoleão. A imagem tornou-se o ícone da família do Czar e Pedro o Grande colocou uma cópia na catedral dedicada a Nossa Senhora de Kazan, em São Petersburgo, a nova capital. Esta catedral também tem uma história curiosa. Nalgumas fotografias, parece a praça de S. Pedro em Roma, com a colunata e a basílica, e a intenção era mesmo essa, como expressão do anseio de a Rússia se unir novamente à Igreja católica. A Igreja ortodoxa protestou com todas as forças contra aquela arquitectura, mas o Czar foi mais teimoso.
A imagem foi roubada da catedral em 1904 e por isso os comunistas já não lhe deitaram a mão, limitaram-se a destruir os outros exemplares e arrasar as respectivas igrejas, ou destiná-las a instalações sanitárias e funções ridículas. Só conservaram a catedral de São Petersburgo, para Museu do Ateísmo. Ao cabo de clandestinidades várias, o ícone escapou da União Soviética e foi parar às mãos de comerciantes oportunistas. A associação católica «Exército Azul» (azul, cor de Nossa Senhora) resgatou-o colocou-o na capela bizantino-russa da «Domus Pacis» (Casa da Paz), junto ao santuário de Fátima, à espera de ser devolvida aos russos. Em 1993, depois da queda do muro de Berlim, foi para Roma, onde o Papa João Paulo II a guardou com grande devoção no seu gabinete, com a intenção de a levar pessoalmente à Rússia. Infelizmente, a igreja ortodoxa russa rejeitou todas as tentativas de o Bispo de Roma visitar o país.
Em 1997, ao tornar-se pública alguma documentação da II Guerra Mundial, soube-se que Elias, então Metropolita russo no Líbano, tinha enviado uma missiva a Stalin, levada em mão pelo próprio Chefe do Estado-Maior da Armada Vermelha, a contar-lhe uma visão: Stalin devia libertar o clero da prisão e deixar que o ícone de Kazan fosse levado em procissão em várias cidades. O receio supersticioso de Stalin explica o chamado «período religioso» (entre 1941 e 1942) e o ter atribuído ao Metropolita Elias o prémio Stalin, «por serviços eminentes à União Soviética e à causa do socialismo». Elias não quis receber dinheiro do ditador e entregou-o para ajuda aos órfãos da guerra; derrotados os nazis, Stalin esqueceu o «período religioso».
Em 2004, João Paulo II desistiu de esperar pela oportunidade de visitar a Rússia e enviou uma delegação para entregar o ícone ao Patriarca ortodoxo, como sinal do desejo de unidade. A delegação foi acolhida, mas a oferta foi desvalorizada: a primitiva pintura tinha-se perdido, aquela era só uma cópia, talvez a roubada da catedral de São Petersburgo; afinal, o Papa só devolvia aos ortodoxos o que já lhes pertencia…
Tanta coisa mudou entretanto que Kirill, actual Patriarca de todas as Rússias, escolheu justamente uma cópia dessa imagem para a oferecer ao Papa Francisco, como «expressão de unidade».
                                                                      Artigo de José Maria André, Fev. 28, 2016,
publicado no Correio dos Açores , ABC Portuguese
Canadian Newspaper, Verdadeiro Olhar, Spe Deus  

Quando ouvimos tantos analistas políticos bem informados afirmarem que o mundo está muito perigoso, confirmando as piores suspeitas, esta Senhora ter tanto poder a mim, pessoalmente, dá-me enorme esperança! Confio mesmo que a Senhora da Paz revele mais o seu poder, para bem de todos nós. Fica o pedido a esta Mãe cuidadosa…   


Maria Zarco 
(a  preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

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