quinta-feira, 17 de março de 2016

Do ódio

Fotografia tirada da net

- Odeio fulano!

Todos nós já dissemos uma frase parecida. Na maior parte das vezes, estou certo, o verbo odiar é aqui conjugado como uma bengala, porque odiar é mais forte do que irritar ou não ter paciência para. Com poucas excepções, o odeio fulano não significa que se odeia fulano. E no entanto, há vezes em que, repetida a exclamação, se pode depreender que há um ódio qualquer. Ou, usando o dicionário, rancor,  repulsa, aversão.

Sentemos dois interlocutores no mesmo espaço: um é cristão, o outro agnóstico. Como olham ambos para a expressão odiar? Excluo deste raciocínio a motivação para o sentimento; é-me indiferente se alguém encontra motivos fortes para dizer que odeia fulano

Para um agnóstico, o ódio pode não ter uma dimensão prática. Isto é, a pessoa que odeia pode nunca mais ver a pessoa a quem odeia. O ódio não tem repercussões visíveis: um murro, uma face cuspida, um golpe profundo feito por um prego ferrugento numa carroçaria cromada. No entanto, pode haver (e o itálico realça a possibilidade) uma dimensão de consciência. Quem odeia não gosta (ou pode não gostar) de odiar. 

Para um cristão, o ódio pode também não ter uma dimensão prática. Mas tem sempre subjacente (e o itálico reforça a certeza) uma dimensão de consciência. Ao cristão está-lhe vedado o ódio porque, como diz a Enciclopédia Católica Portuguesa, o ódio "revela profunda maldade, mesmo quando surge como reacção contra ofensas e injustiças de que se foi alvo, a qual se deve vencer pela virtude do perdão." O 5º mandamento da Lei de Deus é nisso bem explícito: "Não matar (nem causar outro dano, no corpo ou na alma, a si mesmo ou ao pró­ximo)". Cortar relações com alguém é matá-la no coração.

A conduta segundo a religião cristã é seguramente mais desafiadora do que a conduta segundo uma consciência agnóstica ou, como já foi dito por várias pessoas, segundo a ética republicana, porque Cristo manda-nos amar os nossos inimigos. Como escreveu, e muito bem, o Pe. Miguel Almeida no Observador, podemos não gostar de alguém mas temos de amá-la. E isso, como já referi, é independente da proximidade física.

JdB

Nota: a elaboração deste texto foi desencadeada por uma conversa. Ficou nos "rascunhos" até que ontem, por absoluta falta de inspiração, decidi repescá-lo, ainda que incompleto. Foi o que estava...

Sem comentários:

Acerca de mim

Arquivo do blogue