quarta-feira, 9 de março de 2016

Do teatro

Fotografia de Alfred Eisenstaedt

É impossível não falar aqui da grande influência que teria no espírito da nação um bom teatro regular. Considero espírito nacional de um povo a semelhança e a unanimidade das suas opiniões e tendências em relação a problemas que outra nação vê e sente de modo diferente. Só no teatro se consegue em alto grau essa unanimidade, porque ele atravessa todo o campo do saber humano, esgota todas as situações da existência e ilumina todos os recantos do coração: porque concentra em si todas as camadas e classes e é a via mais aberta para a razão e para o coração. Se todas as nossas peças fossem dominadas por uma tendência maior, se os nossos poetas quisessem unir-se para alcançar este objectivo, se os seus trabalhos fossem orientados por uma rigorosa selecção, se os seus pincéis se ocupassem apenas de temas do seu povo, numa palavra, se conseguíssemos chegar a ter um teatro nacional, chegaríamos também a ser uma nação. 

Estas palavras fazem parte de uma lição proferida em 1784 por Friedrich Schiller, subordinada ao tema do teatro como instituição moral.

(não consigo fugir da ideia potencialmente disparatada de que o nosso teatro nacional foi a revista à portuguesa, o que daria a noção de equivalência entre teatro nacional e nação...)

Não sou especialista em teatro, além de que sou pouco frequentador das salas em questão, mais por preguiça de agenda do que pode oposição estética. Cresci na ideia de um teatro excessivamente declamado, com obras que me pareciam excessivamente desinteressantes. De um lado havia a seriedade do teatro, do outro a brejeirice da revista. Entre um e outro uma espécie de no man's land. Hoje em dia o panorama não será este, e a oferta é vasta. Mas, mesmo assim, teremos um teatro nacional?

Por outro lado - e com uma excepção, por motivos muito pessoais, da peça Oscar e a Senhora Cor de Rosa - o teatro não consegue (ainda) emocionar-me como o cinema ou como um livro. Há qualquer coisas que lhe falta (não sei o quê) que não me vai bater à porta da alma. A ideia de Schiller, que ele formula, mesmo assim, com um entusiasmo muito parcimonioso, de que os personagens maus serviriam como uma espécie de boa influência nos espectadores por revelarem vícios existentes na sociedade, é interessante mas discutível. Um personagem de ficção é uma boa influência? E como, se ele não existiu, a não ser na mente e na caneta de quem o criou? Como pode um personagem inventado dizer-nos o que fazer ou como nos comportarmos?

Com excepção, talvez, dos autos de Gil Vicente, a peça de teatro com que a minha geração se iniciou terá sido o Frei Luís de Sousa, de Almeida Garrett. A esse respeito talvez valha a pena referir a abordagem que dessa peça faz Eduardo Lourenço, em O Labirinto da Saudade: "no centro desse percurso [de Portugal] está simbolicamente o ninguém do Frei Luís de Sousa (...)." E continua: "Quem responde pela boca de D. João (de Portugal...), definindo-se como ninguém, não é um mero marido ressuscitado fora da estação, é a própria pátria." Mais do que uma obra romântica, Frei Luís de Sousa teria uma "natureza histórico-política, ou, se se prefere, simbólico-patriótica."

Pela simbologia, mais do que pela revelação de uma realidade, gosto muito desta leitura de Eduardo Lourenço, tão diferente daquela que nos apresentaram - se é que o fizeram - há mais de 40 anos. Se o nosso teatro nacional for este a nação está encontrada, ainda que pelos piores motivos.

JdB 

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