quarta-feira, 23 de março de 2016

Das engrenagens

Fotografia tirada da net

Só numa definição tecnicamente seca é que uma engrenagem é um dispositivo constituído por um sistema de rodas dentadas para transmissão de movimentos em diversos maquinismos. Numa visão metafórica do tema, uma engrenagem é um mar de possibilidades. 

Quando falamos de rodas dentadas falamos de dentes e, nesse sentido, de flanco, de passo, de círculo ou diâmetro da coroa, de espessura e de largura do dente. Em duas rodas que engrenam uma na outra as dimensões dos dentes têm de ser correspondentes, porque o espaço entre dentes é sempre igual. As rodas podem ter dimensões diferentes, diferindo por isso a relação de transmissão. Mas os dentes, o que provoca a engrenagem e contribui decisivamente para o correcto funcionamento do dispositivo mecânico, não. Esta obrigatoriedade de igual dimensão é o garante da eficácia do sistema.

Numa conversa sobre um outro tema, apanho este conceito desenvolvido por um sociólogo, parece-me: quanto mais especialização menos autonomia. Isto é, à medida que fulano se especializa na área A, depende de beltrano que se especializou na área B, sendo que A e B estão intimamente ligadas. Isto é, o especialista em sistema eléctricos precisa do especialista em travões e do especialista em segurança infantil para construir um carro onde possam circular crianças. Dentro da metáfora das rodas dentadas, cada especialista é um dente. E cada dente é individual, imprescindível, sem o qual a engrenagem tropeça - e parte. 

A tendência de especialização teve o intuito da eficácia, porque ninguém conseguiria saber de tudo. E no entanto, não me parece que a motivação para a especialização deva ser essa, mas o da subsistência da espécie humana enquanto conjunto gregário de pessoas. No limite, a sabedoria generalizada de vários temas deveria ser proibida por lei, por princípios de conduta morais, religiosos ou éticos. Não devemos saber tudo, para podermos contar com os outros. Os outros não devem saber tudo, para poderem contar connosco. Devemos, por isso, ser profundamente especializados para podermos ser profundamente (inter)dependentes.

Pode ver-se a engrenagem como um conjunto igualitário de elementos mecânicos - tudo infinita e tristemente igual. Mas pode ver-se a engrenagem como um conjunto construído para um fim - a transmissão de movimento que conduz ao infinito. Facilita se imaginarmos uma comunidade: cada dente é uma especialidade: pintor, pedreiro, alfaiate, canalizador, especialista em médio oriente, psiquiatra, técnico de ansiedades, professor de literatura. E cada reentrância é uma necessidade: quem precisa de um fato de ver a deus, quem sofre de ansiedade, quem não sabe colocar um lavatório, quem gostava de aprender sobre Miguel Torga, etc. Para cada necessidade uma especialidade.

A interdependência, que não é mais do que uma engrenagem perfeitamente concebida - não é um vantagem ou um exercício de eficácia fabril. A interdependência é apenas aquilo que nos salva.

JdB

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