terça-feira, 1 de maio de 2012

Duas últimas


(...) Agora queria que me deixassem em paz. Se calhar já é tarde. Os cartuxos só admitem vocações até aos 40 anos, já tenho o dobro, não sei se tenho capacidades de viver sozinho. Mas pelo menos queria, com a liberdade pessoal suficiente e sem imposição de tempo, dedicar-me à oração. Mais do que isso: dedicar-me a descobrir o valor da palavra, o autêntico significado da palavra, no sentido de linguagem, de expressão da realidade, no sentido de logos. Encontrar-me na meditação da palavra como expressão do mundo, da existência, da história, e descobrir-lhe um sentido.


Li esta entrevista ontem pela hora de almoço. Durante a paragem da minha jornada de trabalho também li um artigo e vi o trailer de É na Terra, não é na Lua, o filme premiado de Gonçalo Tocha sobre a Ilha do Corvo. Há duas semanas, talvez, deparara-me com um artigo sobre o médico da ilha, a relação de amor-ódio que vive com os corvinos, o que o leva a ficar. Ontem, ainda, troquei meia dúzia de frases com quem passa tempos profissionais menos bons, que se refugia num isolamento para, diz-me, focar-se nos seus problemas e na sua resolução.

Há temas recorrentes nas minhas meditações, nos diálogos que mantenho comigo próprio. Serão as minhas obsessões, na expressão de um amigo, sábado ao jantar? O silêncio é, seguramente, um desses temas. Em momento particularmente difícil da minha vida quis isolar-me do mundo que eu conhecia, procurar a solidão das multidões estranhas, como dizia o Eça, refugiar-me alguns dias numa cartuxa, num deserto não turístico, em qualquer sítio onde me encontrasse comigo próprio, rezar e encontrar um sentido para muita coisa. Acabei nos Açores, em S. Miguel, porque entre querer e fazer há um mundo de inseguranças, temores e opções pretensamente inadiáveis. Mesmo assim o tempo não foi perdido...

A parte mais saudável de mim é gregária. A parte mais lúcida de mim é gregária. Apesar disso, nas profundezas do que sou há algo que pensa na ilha do Corvo, no silêncio, na interiorização, na vontade de escrever em frente ao mar, na contemplação das ondas, na vastidão da paisagem, na parcimónia dos sons, num minimalismo existencial, no isolamento que favorece a espiritualidade. Demasiados factores me prendem ao inverso de tudo isto: a família, as relações afectivas, o medo, a (quase) certeza do que sou, a convicção do que é saudável, os projectos, as pessoas que me são imprescindíveis, o gosto por uma vida mundana, a dúvida sobre a validade de alguns desejos.

Domingo almocei em casa de gente que me é próxima, onde adultos e crianças gritavam, faziam barulho, riam, conversavam; ontem jantei com amigos que me sobraram de uma vida profissional de 20 anos; hoje é dia de estar com quem pertence a outra caixinha onde guardo parte da minha existência. Gostei de tudo, repetiria tudo, sentiria a falta de tudo. Não obstante, há algo de corvino dentro de mim. 


Deixo-vos com uma música bonita, que muitos considerarão triste. É assim... Há sempre o primeiro de maio, sabem?

JdB 
  

3 comentários:

Anónimo disse...

Um tema "com pano para mangas", com uma abordagem que acho que percebo bem.
Excelente tb a escolha musical!
Abraço,
fq

Luiza Azancot disse...

Discordo em absoluto da palavras "saudavel" e "lucida" no contexto em que foram usadas.

Anónimo disse...

Revi-me por inteiro no terceiro parágrafo. Mas também não sei se o chamar saudável a um apelo forte é a palavra indicada. Belo texto. pcp

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